Segundo Caso. - Por Adamina Moura
Meu critical incident que contarei hoje provém de um erro que cometi como professora no ano passado. Em 2021 eu dava banca para três crianças, duas das quais eu recebia na minha casa nos horários combinados. A terceira criança era um garoto com menos de 10 anos (vamos chamá-lo de Yuri), e sua mãe alegava não poder trazê-lo até a minha casa devido ao trabalho. Sendo assim, era eu que me deslocava até a casa dele, numa caminhada diária de cerca de 20 a 30 min no total, ganhando um valor bem ínfimo e muitas das vezes não encontrando Yuri presente quando chegava lá. E, quando não era Yuri que havia saído pra andar de cavalo, bicicleta ou brincar com algum amiguinho, era algum livro escolar ou material que estava faltando. Além disso, a avó dele às vezes me pedia pra ajudar a irmãzinha do meu aluno e até mesmo pra fazer uns favores pra ela quando ela (a avó de Yuri, no caso) quebrou o pé, o que não seria um problema se ela fosse minimamente educada e não me tratasse como lixo. Em resumo, somando a irresponsabilidade da família a um pagamento que não amenizava a situação e não me incentivava, eu logo comecei a me desgastar. E foi num dia especialmente penoso, no qual tive que percorrer meu trajeto habitual enquanto estava morrendo de dor, que caiu a última gota d'água. Quando cheguei na casa de Yuri estava tudo uma zona (como estava 70% das vezes, mas isso não vem ao caso), e a empregada da família mandou que fôssemos fazer a atividade no 1° andar. Assim que subi as escadas eu tombei na única cadeira que havia ao redor da mesa, e Yuri, como uma boa criança com menos de 10 anos, começou a teimar que aquela era a cadeira dele e que eu devia buscar outra. Impaciente ao extremo, eu rebati num tom de voz um pouco alto e grosseiro demais que ele que fosse buscar outra cadeira, no que ele saiu correndo pra contar à empregada da mãe o que aconteceu. A moça me repreendeu, mesmo que indiretamente, e ainda disse a Yuri que ele devia contar o que aconteceu à mãe; Yuri ficou choramingando pra cima de mim, eu não me desculpei mesmo me sentindo culpada porque o orgulho não permitiu e daí ficou um clima bem esquisito na casa. Foi nesse dia que eu percebi que aquilo estava me cansando demais e que não valia a pena, então só aguentei os dois meses que faltavam pro fim do ano letivo antes de largar o serviço. E acho que foi uma boa decisão, porque era bem provável de eu acabar criando conflito com alguém da casa por causa do desgaste emocional se continuasse lá. O que importa é que saí com algum resto de dignidade e ainda falo normalmente com Yuri e a mãe quando os vejo por aí, e mais importante ainda do que isso, aprendi a respeitar os meus limites um pouco mais e também o quanto é essencial trabalhar o autocontrole para evitar certas situações.
- Adamina Moura
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ResponderExcluirMediante ao seu relato, percebo que desde o início seria difícil estabelecer um relacionamento estritamente profissional com a família. Você não poderia opinar sobre o ambiente aparentemente desorganizado, pois o local do ensino era a casa do aluno. A aula não poderia ser em sua casa, por questões da família. E, quando não há o reconhecimento por parte dos "clientes" tudo fica mais difícil e penoso, resultando no acúmulo de stress. Porém, acredito que caberia algum tipo de imposição para com o local da aula. Daria para impor que o aluno fosse estudar em sua casa ao menos um ou dois dias na semana, ou algo do tipo. De qualquer forma, acredito que não há preço que pague a saúde emocional (de qualquer profissional) especialmente do professor.
ResponderExcluirSó por sermos profissionais não significa que deixamos de ser humanos, portanto receber respeito e um bom tratamento ainda é necessário na manutenção do exercício do ensino. Eu concordo com suas ideias sobre abandonar o serviço ter sido uma melhor decisão, já que a situação mostrava indício algum de melhora. É um desafio enorme ensinar crianças por ainda não terem ferramentas para lidar com suas emoções e responsabilidades é necessário paciência somada à experiência para lidar com elas, eu valorizo a sua capacidade de reconhecer que talvez não seja o momento pra lidar com esse tipo de desafio, certamente não na situação de um ambiente de trabalho como aquele.
ResponderExcluirÉ uma situação de fato muito delicada, eu enxergo uma soma de barreiras que impediam de diversas formas que você realizasse um trabalho bem-sucedido. Você não poderia organizar o seu próprio ambiente adequado, pois era você quem se deslocava até a casa do aluno, esta, pela maneira como descrita, atrapalhava o processo por conta da desorganização, e além das longas caminhadas em vão, havia ainda o contratempo causado pela "colaboração" da avó do aluno. A situação inteira era um contexto desfavorável para você, e é admirável a sua resiliência e capacidade de continuar, diante de uma situação tão desconfortável, e concordo que se afastar desse ambiente foi a decisão mais prudente a se tomar, e deve-se à família do estudante a falta de responsabilidade por não se preocupar com a integridade do processo de aprendizagem do filho, e muito menos com quem fazia esse processo acontecer.
ResponderExcluirUsando uma frase que ficou muito famosa na internet da professora (Amanda Gurgel) eu digo: "estão nos colocando dentro de sala de aula com um quadro negro e um giz a fim de salvar a humanidade? Não posso e não tenho condições para tal."
ResponderExcluirHá tempos vemos os professores sendo colocados num patamar enorme de descaso que situações como essa não chocam mais e isso é extremamente preocupante e revoltante!
Seu relato traz e mostra com clareza tal descaso (dos adultos) sobre as aulas e isso com toda certeza influenciava o comportamento da criança. Tanto quando não estava em casa (para sair e brincar e/ou fazer qualquer outra coisa que não fosse estudar), quanto na desorganização do local, bem como até em pedir pequenos "favores" para uma profissional que não está ali com outro intuito a não ser ensinar.
A que ponto podemos e devemos suportar tais "humilhações"? Seria esse o papel do educador mediante a pais e consequentemente, alunos sem noção (sejam elas crianças ou não)?
O papel de educar tem sido depositado nas "costas" dos professores e isso tem nos deixado cansado, principalmente porque normalmente a remuneração é irrisória.
Penso eu que conhecer nossos limites e não aceitar tais condições seja o primeiro passo de uma longa jornada que ainda temos que prosseguir.
- Gerbson Ferreira
Antes de tudo acredito que devo externar meu respeito por ter aguentado tanto tempo nessas condições. Por muitas vezes já me questionei qual seria o ponto de limite se tratando de ensinar crianças, tendo em vista a dificuldade de isso gera, mas acredito que você agiu da melhor forma possível. O trabalho de um professor, infelizmente ainda é muito desvalorizado, mas não por causa disso devemos nos submeter a situações tão difíceis como essa, e se a família da criança de fato entendesse a importância do seu trabalho iriam de alguma forma se esforçar pra melhorar seu ambiente e condições de trabalho.
ResponderExcluirRaine Silva